Caminho agostiniano para o discernimento vocacional (Parte 2)

A vida religiosa vale a pena?
2 fevereiro, 2021

Ouça o seu coração

Para Santo Agostinho é muito importante aprender a ouvir o próprio coração. Ainda por cima, no caminho do discernimento vocacional; é importante aprender a ouvir a voz de Deus no mais profundo do coração. Mas dificilmente se ouve a voz de Deus no coração, se primeiro não se aprende a escutar o próprio coração. Porque é tão importante escutar o coração? Santo Agostinho dá uma resposta simples e contundente: “Porque no coração sou o que sou” (ConfissõesX, 4).

Sempre me chamaram a atenção as sementes. Uma das experiências mais surpreendentes da minha infância foi ver como uma semente simples e pequena nasce e cresce tanto, até dar flores e frutos. Jesus de Nazaré também notou o prodígio que é uma semente. Ele usou a imagem em uma parábola: “O Reino do Céu é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E se torna uma árvore” (Mt 13, 31-32). Ele também usou isso para se referir à fé: “se vocês tiverem fé do tamanho de uma semente de mostarda, podem dizer a esta montanha: ‘Vá daqui para lá’, e ela irá” (Mt 17,20).

Qual é a coisa mais surpreendente de uma semente? Seja o tipo que for, quando se dão as condições adequadas, guarda em seu interior toda a informação necessária para nascer e se desenvolver de acordo com sua espécie. Da mesma forma, a semente contém em si a força suficiente para iniciar um processo de desenvolvimento de uma vida, que está escondida em seu interior, isto quando encontra no exterior sinais favoráveis para iniciar esta fase. Uma simples semente abriga em seu coração a maior promessa de vida.

A pedagogia do acompanhamento vocacional pode tirar proveito dessa sabedoria inscrita nas profundezas de todas as espécies vivas da natureza; em particular, no ser humano. Quando Santo Agostinho nos convida a retornar ao interior, ele propõe uma viagem ao centro do coração, onde está protegida a verdade mais profunda do ser humano e a força suficiente para irromper um maravilhoso processo de vida. Neste sentido, aprender a ouvir o coração é aprender a reconhecer que no mais profundo do interior, está alojada a verdade mais essencial e a força germinal mais potente.

O primeiro passo para o discernimento vocacional é justamente aprender a ouvir o próprio coração, porque o coração da pessoa reencontra sua identidade mais profunda; lá o ser humano é o que ele realmente é. Como aprender a ouvir o coração? O exercício de escutar o coração é um desafio. Normalmente, as pessoas, no esforço de se adaptar à realidade e às circunstâncias do ambiente, se distanciam de seu centro mais genuíno. A mesma cultura favorece atender muito mais os aspectos externos, superficiais, da imagem e da aparência. A mensagem é: se não te tornas reflexo daquilo que a mesma sociedade dita que sejas, então não és ninguém.

A maneira de ter acesso às profundezas do coração é recuperar os anseios mais profundos, aqueles que fluem da essência e originalidade de cada pessoa. Escutar o próprio coração tem muito sentido, pois, ao recuperar aqueles sonhos inocentes, aqueles grandes sonhos inspiradores como por exemplo: viajar pelo mundo, ser astronauta, dirigir um submarino, pilotar um avião, ser o capitão de um grande navio ou um elegante modelo de moda, etc. Aqueles sonhos que possivelmente alguém zombou ou chamou-os de fantasias ilusórias e irrealizáveis.

O primeiro passo, portanto, para o discernimento da própria vocação consiste em escutar o próprio coração porque é no coração onde estão guardados os desejos mais profundos, aqueles que nasceram da essência que é cada pessoa. E o núcleo do discernimento não é recuperar materialmente esses sonhos para tornar cada um deles realidade, mas sim recuperar a capacidade de sonhar, capacidade que talvez esteja sem vida. No caminho vocacional, os anseios mais profundos, os sonhos mais genuínos, indicam a melhor direção da vida.