A Igreja é um hospital de campanha que acolhe e cura as feridas. Mas qual é a missão da pastoral vocacional? Uma reflexão sobre a importância de formar pessoas capazes de descobrir o seu chamado e colocar-se ao serviço dos outros.
O papa Francisco descrevia a Igreja como “um hospital de campanha após uma batalha”. Uma imagem que ajudou a compreender que a missão da Igreja começa ali onde o ser humano está ferido. Mas talvez essa mesma imagem possa ajudar-nos a colocar outra pergunta: se toda a Igreja é um hospital de campanha, que imagem expressa melhor a missão da pastoral vocacional? Talvez a sua tarefa se pareça mais com a de uma academia onde se preparam aqueles que um dia serão enviados para servir.
Curar as feridas ou preparar para a missão
A imagem do hospital de campanha possui uma enorme força. Depois de uma batalha não há tempo para protocolos nem para longos diagnósticos. O urgente é deter a hemorragia, aliviar a dor e salvar vidas.
Não é difícil reconhecer o nosso tempo nessa cena. Muitos chegam à Igreja com feridas profundas: relações partidas, solidão, incerteza, ansiedade, falta de sentido ou uma experiência de Deus quase inexistente. A Igreja não pode permanecer nos seus gabinetes enquanto o sofrimento se multiplica. Deve estar perto, escutar, cuidar e acompanhar.
Mas uma vez que o ferido começa a recuperar-se, surge uma nova pergunta: basta curar para que uma pessoa encontre o sentido da sua vida? Porque sarar uma ferida não significa ter descoberto uma missão.
“Sarar uma ferida não significa ter descoberto uma missão”.
Uma academia não forma soldados; forma servidores
Talvez a pastoral vocacional possa entender-se melhor a partir de outra imagem, também retirada do âmbito militar: a academia.
Uma academia não existe porque há uma guerra, mas porque uma sociedade precisa de pessoas preparadas para assumir uma responsabilidade quando chegar o momento. A sua missão não consiste unicamente em transmitir conhecimentos, mas em formar o caráter, fortalecer as convicções e ajudar cada um a descobrir o lugar onde melhor pode servir.
O mais interessante é que nem todos os alunos terminarão desempenhando a mesma tarefa. Alguns serão pilotos, outros engenheiros, outros médicos, outros assumirão tarefas de logística ou de liderança. Todos pertencem ao mesmo corpo, mas nenhum é formado para ser uma cópia do outro.
Não acontece algo parecido com a vocação? Deus não chama para fabricar cristãos idênticos, mas pessoas capazes de responder de maneira única a um mesmo chamado. A questão não é ocupar um posto, mas descobrir o serviço que só cada um pode oferecer.
“Deus não chama para fabricar cristãos idênticos, mas pessoas capazes de responder de maneira única a um mesmo chamado”.
A formação precede o envio
Com frequência falamos de pastoral vocacional pensando numa decisão concreta: ingressar num seminário, numa comunidade religiosa ou preparar-se para o matrimónio. No entanto, talvez estejamos a começar a história demasiado tarde.
Antes do discernimento está o crescimento. Antes de responder é preciso aprender a escutar. Antes da missão está a formação do coração.
Jesus passou anos a formar os seus discípulos antes de os enviar. Caminhou com eles, respondeu às suas perguntas, corrigiu as suas ambições, ensinou-lhes a viver como irmãos e mostrou-lhes que a autoridade só se compreende a partir do serviço. Só então chegou o envio: «Ide por todo o mundo» (Mc 16,15).
A espiritualidade agostiniano-recoleta conserva esta mesma pedagogia. A interioridade não é um refúgio para quem deseja afastar-se do mundo, mas o lugar onde aprendemos a escutar a voz de Deus. A comunidade não é um destino, mas uma escola de humanidade. E a missão não é uma atividade a mais, mas a consequência natural de uma vida transformada.
Talvez por isso a pastoral vocacional não deveria perguntar-se primeiro quantas vocações despertou, mas quantas pessoas está a ajudar a crescer.
“Antes do discernimento está o crescimento. Antes de responder é preciso aprender a escutar. Antes da missão está a formação do coração”.
Para quem estamos a formar?
Toda academia sabe que os seus alunos não permanecerão para sempre nas suas salas de aula. O sucesso da instituição não consiste em retê-los, mas em prepará-los para o lugar onde serão mais necessários.
Estamos a formar pessoas para as nossas obras ou para a missão de Deus? Preocupa-nos mais que alguém entre numa comunidade concreta ou que descubra o lugar onde o Senhor o espera? A diferença pode parecer pequena, mas muda completamente a perspetiva.
Uma pastoral vocacional entendida como academia não procura aumentar estatísticas. Procura que cada pessoa descubra quem está chamada a ser. Porque a vocação nunca nasce para satisfazer uma necessidade institucional, mas para responder ao sonho que Deus tem sobre cada vida.
O hospital de campanha continuará a ser imprescindível enquanto existirem pessoas feridas. Mas, uma vez que o coração começa a sarar, é preciso outro espaço onde aprender a viver, a servir e a amar. Talvez aí comece a verdadeira pastoral vocacional: não quando perguntamos «o que vais fazer com a tua vida?», mas quando acompanhamos alguém até que descubra que toda a sua existência pode converter-se numa missão ao serviço dos outros.
Porque, no final, a melhor academia não é a que forma mais alunos, mas a que ajuda cada um a encontrar o lugar a partir do qual pode servir com maior fidelidade. E essa continua a ser, hoje como ontem, a grande tarefa da pastoral vocacional.
“A vocação nunca nasce para satisfazer uma necessidade institucional, mas para responder ao sonho que Deus tem sobre cada vida”.